É estranha a nuvem da areia que se esparrama pela ampulheta do tempo. Minha visão se turvava, hora mostrando a figura sisuda de um rapaz de longos cabelos negros, olhos puxados e desconfiados, sempre calçando coturno e com as mãos nos bolsos da calça, onde tilintavam os anéis de uma corrente, ora mostrando o japonês de cabelos curtos, sorridentes em roupas esportes que tentavam em vão disfarçar que estava um pouco acima do peso. Dez anos separavam uma imagem da outra e tudo o que conseguia afirmar é o mesmo jeito honesto de falar, as mesmas piadas cruas de quem não tem segredos em mente. Dez anos haviam se passado e diante de mim estava o mesmo amigo de antes, do mesmo jeito, apenas... diferente, de casca castigada e temperamento lapidado. Mas ainda o Wellington.
Fiquei feliz em vê-lo. Logo de início trocamos um amistoso abraço daqueles que confirmam a presença que os olhos não fazem real. Logo de cara, duas piadas sobre coisas passadas, anedotas de quando o mundo era mais simples, em que um real no bolso e um dia de sol era o suficiente para longas aventuras de bicicletas e gargalhadas vândalas espalhadas pelo asfalto. Estava aberto um tunel do tempo, um ponto focal para um universo que já havia se empalidecido em minha lembrança, cheio de idiotices feitas por nada, orgulhos secretos que não se contavam para os pais. Dei-me conta de já havia sido um adolescente encrenqueiro, torrnara-me um moço pacato e agora já era um homem tranqüilo o suficiente para surpreender ao falar dos velhos tempos.
A visita durou algumas horas, poucas, se comparada com os anos de ausência. Ofereci ao meu amigo pousada, ficasse o tempo que quisesse, não precisava se preocupar. Ele recusou o convite com longos agradecimentos, era hospede na casa de outras pessoas, elas que ficassem com todo o trabalho.
Para mim não é trabalho nenhum, argumentei. Mas ele sorriu, irredutível, já havia combinado, agora era melhor voltar a casa dos seus anfitriões. Fomos caminhando até o ponto, falando sobre as tristezas deste país quando se chega de outro lugar, mas também das alegrias que se esparramam sob as palmeiras de sabiás cantantes. O Brasil é ruim, mas é bom. Concluímos. Esse povo não merece os governantes que têm e que se foda o dito popular.
Wellington entrou no ônibus prometendo voltar outro dia, com mais calma, e eu fiquei feliz em saber que esse dia não levaria outros dez anos. Caminhei de volta para casa tropeçando em buracos na calçada e com medo que a viatura da polícia, resolvesse me parar, implicando com o meu cabelo. Por instinto bati no bolso procurando a carteira. Nada. Nenhum documento entre eu e a cadeia. Tentei lembrar se no meu tempo a polícia era menos assustadora, ou se eu era mais corajoso. Baixei a cabeça para poder rir dos próprios pensamentos. Nos fones de ouvidos, The Clash tocava “Police On My Back”. Não havia mais nada a dizer.