quarta-feira, 3 de setembro de 2008

cadernos

Tenho dezenas de cadernos semi-preenchidos espalhados pela casa. É meu jeito. Sou um caderno pela metade, com notas esparsas e confusas que dizem e desdizem histórias que se passam em minha cabeça. Eu ando pela casa tropeçando neles, folhei-os tentando decifrar minha péssima caligrafia e descubro que é ela quem disfarça a gramática que eu assassino a cada linha. Procuro sentidos, busco lembranças, por vezes me sinto invadindo o diário de um desconhecido, alguém que não sou eu, que nunca foi eu. Tantas páginas jogadas ao vento e eu nunca cheguei a lugar algum, estou sempre ali, começando um caderno novo, comprando-os compulsivamente como se nas novas páginas fosse ser diferente. Já os compro em pacotes, dedico um ao livro que não se acaba, outro a idéias esparsas que não devem se perder, no terceiro lamento a improdutividade da vida e quando vejo, lá estão outros três cadernos recheados de vento que eu abandono em qualquer lugar. Eles nunca chegam ao fim. Lutam bravamente, vencendo-me quando chegam a metade. As vezes me derrotam próximo as cinco últimas páginas, nunca depois disso. Repetem indefinidamente a mesma ladainha, cravando-me em meu inferno grego, a montanha que cresce dia a dia e que eu jamais terminarei de escalar.
Mas talvez eu esteja enganado.
Comprei novos cadernos.
Talvez, desta vez, eu consiga finalmente terminar.

1 coments:

Ex-finge disse...

vc é um prato cheio pra estudo de psicanálise