Inferno
“Salário de merda!” Repetiu Robson tão baixo que ninguém ouviria. “Salário de merda!” Seus olhos continuaram presos na tela do computador, oscilando entre um arco-íris do lado superior direito, bem abaixo do pingüim idiota que sua mãe havia lhe dado, passando para um verde gosmento até chegar ao cinza apático e sem graça que manchava toda borda inferior do monitor, emoldurando a pilha de formulários incompletos e o trabalho acumulado de semanas. “Salário de merda!” cadenciou ele quase ao mesmo ritmo em que digitava os onze dígitos que separavam aquele pobre infeliz das guias ADOC17 para as ACOD27.
– ... com um salário de merda nesses, né não Robssão?
– É sim. – Ou não, não importava. Luiz continuaria falando do mesmo jeito. Terminaria o cafezinho que já estava gelado em sua mão, folhearia outro arquivo sem ter idéia do que tinha em mãos, esperaria Ana Flávia passar vindo da sala da diretoria, mediria cada centímetro de pele exposta lamentando não poder fazer o mesmo com a língua e terminaria o ritual dizendo...
– Um dia ainda como essa vadia. – Robson tomou ar. – Lá no quartinho morto. Né não, Robssão?
Terminou o ACOD27 e preparou-se para enviar. Doze segundos salvando, seis abrindo outro arquivo. Meio minuto retirando outra pasta da pilha e checando se ela tinha todas as informações. Se estivesse completo, oito minutos e meio para preencher todos os dados. SE não estivesse, outro meio minuto procurando outro arquivo. Torcia para o computador não travar. A vida era cheia de “ses”.
– Melhor começar a trabalhar, né não Robssão?
– É. Melhor.
Luiz jogou o copinho de café na lixeira de Robson. O cheiro de óleo de máquina queimado subiu pelo ar amargando seu ventre. Ele já esperava por isso, tinha um anti-ácido no bolso. Retirou-o com dois dedos em pinça e o depositou na boca, sem tirar os olhos do ADOC17. Algo resvalou em suas pernas, de leve. O susto fez Robson engasgar com a pilha e se contorcer em uma tentativa pouco ortodoxa de faze-la voltar pelo caminho certo. Não tossiu, não tinha ar para isso, ao invés disso ficou oscilando entre o formulário incompleto que teria que devolver e a imagem do seu gato morto na frente de casa.
De pé, lutando com a gravata, atraiu olhares em sua direção, embora os dedos continuassem ocupados em sua rotina. Juliane, a bela morena duas mesas a frente da sua trincava os brancos branquíssimos, desesperada. Robson ouviu o miado baixo de seu gato pedindo comida e pensou que estava prestes a desmaiar. Era um jeito idiota de morrer, engasgado com uma pílula de anti-ácido. Teria rido se ainda tivesse fôlego.
E ele nem havia terminado o ADOC17.
Sentiu algo pressionando seu diafragma e tentou se livrar. Algo estalou sob sua camisa e ele achou que fosse seu peito explodindo. O mundo já era uma confusão de gatos e números se espalhando por milhares de formulários incompletos. Tudo cheirava a café amargo. Sentiu uma força avassaladora em seu peito e sem outra explicação, cuspiu o anti-ácido pra fora. A pequena bala rolou pelo carpete gasto e parou a exatos vinte centímetros do pé de Juliane.
Uma secretaria atendeu o telefone.
Ninguém disse nada.
– Pronto! Pronto! Um pouquinho mais e você preencher formulários de aprovação direto pra São Pedro, né não Robssão?
Luiz deu mais uns tapinhas inúteis nas costas de Robson e desapareceu antes que ele tivesse ar para agradecer de verdade. Ninguém olhava mais em sua direção. Robson terminou de pegar ar e voltou a se sentar em sua mesa. Precisaria devolver aquele ADOC17.




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