terça-feira, 16 de setembro de 2008

Cadernos

Ando buscando o silêncio de páginas em branco, como sempre. Mas até o som das teclas me distrai agora, até a visão das palavras na tela, faz com que eu me perca. Dei dez anos de passos para trás encontrando refúgio em cadernos semi-gastos como minhas palavras. Ao folheá-los fica evidente como sou aleatório. Misturo ficções longas com notas pessoais sobre o tempo, listas de tarefas que jamais serão feitas, recados pegos ao telefone, rascunhos para o que viria a ser um artigo, sonhos que já não me lembro direito, endereços de lugares que gostaria de visitar, listas de musicas que não posso deixar de ouvir e lacunas de todos os tamanhos, linhas e páginas, salpicadas por toda parte como uma tentativa frustrada de separar as minhas idéias. Do que tenho escrito não consigo discernir o que está pronto ou o que já foi publicado. Fica tudo ali, batido e misturado como uma grande vitamina de conversas fiadas. Muitas vezes me leio sem saber que sou eu, outras vezes me reconheço, mas não sei mais o que queria dizer. Essas redescobertas me fascinam tanto quanto a possibilidade do novo que existe a cada início de linha.
Até o tempo deixa de fazer sentido. O caderno tem saltos estranhos na cronologia do que julgo ser minha vida. As vezes o imagino com alguns meses, outras vezes com alguns anos. Folheio suas páginas e encontro datas que não podem estar corretas, assuntos que foram encerrados a tempo demais para continuarem a existir. Palavras que já deviam ter se desbotado e sumido, mas que por uma das bizarrices destas folhas foram escritas ainda ontem e já não tem mais força.
Este ano tem fim? Estas folhas se acabam? Esses pensamentos se fecham?
Talvez eu esteja morto e condenado a ciclos que nunca se acabam. Quando escrevo é o Paraíso, quando me calo, o Inferno. E a monotonia púrpura do dia, com suas picuinhas insatisfatórias sobre dinheiro, ócios e ofícios, é o meu purgatório diário, onde não existe nada a fazer, exceto esperar.
Mas, como Dante teve Beatriz, eu também tenho minha luz, e embora nem sempre ela entenda minha agonia, ela me ama, me instiga e me apóia, e isso é mais do que eu poderia desejar.
Quase nunca escrevo sobre ela e isso muitas vezes me confunde. Talvez eu simplesmente tenha medo de que ela entre nestas páginas sem ordem e desapareça em minhas confusões. Ou talvez ela seja como o farol que me indica a saída, quando me afogo no meu mar de pensamentos. Ela tende a dar corpo ao meu mundo, consistência ao etéreo, foco ao aleatório. Como se fosse o centro coeso onde posso me encontrar e a partir do qual tudo começa a se desbotar e se perder numa enxurrada de possibilidades. Mas nada disso lhe faz a menor justiça. Ela é meu afago e minha promessa de que não importa a profundidade deste pântano de idéias, no fim tudo terminará bem, porque eu a tenho e ela me tem. E isso basta.