Veja. Não dá pra ler.
Coisa de três semanas atrás, recebi da minha sogra um exemplar da Veja cuja matéria de capa falava sobre educação. Não leio a Veja. Mal posso lembrar a última vez em que abri a revista e não passei raiva, mas essa não foi uma provocação da minha sogra. Como ela sabia sobre meu interesse na área educativa – mais precisamente, em como andam os livros didáticos – ela me ofereceu a revista com a promessa de que eu passaria raiva ao lê-la. Respirei fundo, abri suas páginas e comecei a ler a matéria.
Pela primeira página, ou página e meia, fiquei surpreso com a seriedade da matéria. Em pesquisa, a veja havia presenciado ou comprovado algo que todos nós já sabemos a muito tempo. Alunos, professores e pais não falam a mesma língua e, cada qual tem um objetivo específico pra escola. Em tabelas e gráficos a Revista mostrava que era impossível a satisfação de todos, já que cada um tinha uma expectativa. Eu mal podia acreditar que a Veja havia dedicado a capa a uma matéria completamente apolítica.
Ainda bem que não acreditei. Parágrafos a frente, começou o show do chacrinha e a veja começou a criticar o PT. A matéria deu uma guinada de 180 graus e deixando de lado a questão da qualidade e dos objetivos da escola, começou a panfletagem terrorista que prometia o fim do mundo sob uma bandeira comunista. A matéria brandiu com todas as forças os péssimos exemplos que encontrou nas escolas para dizer que os filhos da nação estavam sendo doutrinados a se tornar comunistas, comedores de criancinha e adoradores do diabo. Ridículo. Uma matéria tão tendenciosa que eu achei que ninguém no mundo iria cair na sua conversa fiada, me enganei. As semanas se passaram e as manifestações de apoio a Veja só cresceram, contra ela? Nenhuma voz. Pois bem, estou fazendo aqui a minha parte.
A Veja apresenta em um gráfico super fashion um quadro falando sobre as personalidades mais faladas em sala de aula junto com uma tabela perguntando se os professores falavam bem, mal ou eram neutros para os alunos responderem. Figuravam na tabela, Lula, Che Guevara, Lênin e Hugo Chave. A idéia era mostrar o que os professores falavam sobre as figuras vermelhas do mundo. Ótimo. Mas então eu me pergunto: porquê não perguntar sobre outras personalidades? Bush, Fernando Henrique Cardoso, Daniel Dantas... A veja não perguntou sobre eles ou simplesmente não publicou as respostas? Isso importa? Não. O que importa é a parcialidade que a matéria mostra. Ainda na mesma página, a revista critica os professores por se identificarem mais com Paulo Freire, educador, do que com Eisntein, físico. Afinal de contas Paulo Freire era outro comunista adorador do diabo e essa gente precisa ficar longe das nossas crianças.
O tom da revista é todo de denúncia, pedindo uma neutralidade no ensino. A neutralidade no ensino precisa realmente ser exigida, apesar de hoje qualquer macaco bem penteado saber que não existe nada 100% neutro quando se fala em informação. Mas e quanto a neutralidade da mídia? Um veículo de comunicação em massa, assim como a revista veja, não deveria, também manter sua neutralidade? Bem, a esse respeito a revista usa o melhor do sofismo, respondendo ao trecho do livro de Geografia da editora Quinteto Editorial que dizia que “Os meios de comunicação em massa são formadores de opinião que divulgam apenas as idéias de seu interesse”. O comentário da Veja? “O autor está em boa companhia. Foi exatamente essa justificativa dada pelo ditador Fidel castro ao fechar os jornais em Cuba e lançar o órgão monopolista oficial de ‘formação política’, o diário Granma”.
Golpe de mestre. Quer dizer que não é a veja que defende os seus interesses publicando matérias tendenciosas, é o Fidel que é um cara malvado? Posso ter ficado maluco, mas a veja não pode defender seus interesses E Fidel ser um cara malvado? Desde quando uma coisa exclui a outra? Estou mentindo?
Então que tal o fato da Veja começar a levantar esse estardalhaço nas vésperas de lançar o seu novo sistema de ensino? Ooops... parece que a opinião de Fidel não estava tão equivocada assim.




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tive a mesma impressão que vc ao ler essa matéria
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